Raul Leal
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Sobre as distâncias

Transfiguração

 

Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.

Crítica publicada no site www.aguarras.com.br em julho de 2007.

 

 

Ver e ser visto

Eu tinha uma pergunta específica para fazer às obras expostas na exposição Ver e ser visto, da Repercussivo (RJ).

Essa galeria trabalha com artistas jovens, em início da idade adulta e da profissão. Eu queria saber o quanto eles vêem do que está à sua volta e o quanto eles, ao contrário, apenas querem ser vistos. Eu queria saber se eles aspiram a uma identidade (e papel) social.

De antemão, eu achava que não.

Mas sim.

E em dois níveis, um mais profundo do que o outro.

O menos profundo fica por conta do tema, bem poucos, de cunho social ou crítico. O mais profundo vem pelo modo como seus temas - não importando quais sejam - são tratados. E há os intermediários.

Alexandre Hypólito colou uma foto de uma infância antiga em toras velhas de madeira. Integrou madeira e foto no recorte irregular e nos fios de tinta que recobrem o conjunto. O menino deixa portanto a esfera privada, biográfica e individual, para representar um tempo passado com uma relação menos intermediada de trabalho, e portanto produtora de vínculos sociais mais claros. É a madeira, achada, que denota esse uso de trabalho. Tal tempo ressurge, ao ser fotogrado, e nos critica, a partir de seu despojamento não consumista - a foto é em PB. O título dado por Hypólito, contudo, desmente essa leitura: Reo ab incunabulis - preso desde o berço - é queixa de quem ainda não se libertou de peias, não mais sociais mas psicológicas.

João Penoni também se sente preso. Sua AcroGrafia é uma montagem de fotos feitas com um personagem se exercitando em uma barra, dentro de um banheiro minúsculo. As fotos são cortadas em forma de trapézio. A escolha desse formato para as fotos produz uma ilusão de perspectiva - que se estenderia até o horizonte, caso horizonte houvesse - e isso aumenta ainda mais a claustrofobia do espaço representado. Na utilização de um cenário típico de moradias modernas e urbanas e na solidão dos movimentos de ginástica, que não têm utilidade exterior a eles mesmos, Penoni faz um bom retrato do cotidiano de grandes cidades.
Raul Leal de todos é o que mais abdica de divisões nítidas do tipo "eu vejo o mundo e eu quero ser visto pelo mundo". Seu mundo sem contornos fixos, impressionista, integra-se e integra-o em um mesmo chão de rua. No díptico apresentado, contudo, o ponto de vista é o aéreo, que esmaga e desconsidera a figura humana.

A relação entre autor, fruidor e esse tempo sempre duplo da fotografia (o do que foi fotografado e o da fotografia propriamente dita) têm aqui uma unidade. Alguns dão as costas ao mundo, outros integram-se a ele, mesmo que ao seu chão. O tempo é o da presentificação mitológica ou histórica. E há os que registram o pouco espaço que a sociedade oferece para quem chega. Seja como for, esses artistas, todos eles, ensaiam uma resistência à apropriação hegemônica do olhar.

Quase todos. A exceção - em maior ou menor grau - ficando com os que se apóiam na excelência técnica para repetir conceitos já assimilados.

A dupla estratégia do corte e recorte da figura humana, e a da repetição, nos dípticos e trípticos presentes, traz uma contestação incipiente ao poder, incluindo o autoral. A relação entre o ver e o ser visto, apresentada com várias integrações por textura, cor e composição, se torna assim mais de interação fluida do que de oposição. O que talvez seja uma boa notícia, um individualismo renitente que se anuncia mais problematizado.

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