|
Contraluz
Arte3
Novíssimos
Novíssimos
Ver e ser visto
Transfiguração
Elvira Vigna é escritora e crítica de arte, com formação em letras e arte, e mestrado em teoria da significação pela UFRJ. Último livro publicado: "Deixei ele lá e vim", 2006, Companhia das Letras.
Crítica publicada no site www.aguarras.com.br em outubro de 2007.
|
Sobre as distâncias
Raul Leal está chegando na frontalidade. Não na frontalidade
dos modernistas, para quem a tela era exatamente isso, uma superfície
plana. Seus grandes acrílicos, expostos no Galeria Café,
de Ipanema, têm mais a ver com uma outra tela, a do computador,
com sua frontalidade profunda, infinita mesmo, e que é o parâmetro
de frontalidade de hoje.
Ele ainda não está lá, mas vai chegar. O espaço
que ele constrói aponta para esse nada sem norte ou sul e que
vai até perder de vista. Sua cidade (ele parte de fotografias
que tira pelas ruas do Rio) é um vestígio do lugar público
depois que lugares públicos foram lavados de sua utopia comunitária,
do seu grude. Vai daí que as manchas mais claras nadam no nada.
As telas são azuis, a cor tradicional do infinito na pintura
ocidental, e nelas os fantasmas dos que já fomos se igualam,
em um mesmo tratamento, a objetos também mal delineados, apenas
umas sombras, só que ao contrário: o escuro é o
resto, elas são esbranquiçadas. E têm seu movimento
lerdo de sombras estratificado pela interrupção de um
real, marca indelével da fotografia original: os passos não
são completamente dados, os gestos não se realizam de
todo (como na série Do mesmo lado), uma mão fica no ar.
Essa incompletude, somada à precariedade da tinta muito lavada
e monocromática, salva Raul de dicotomias antigas, como urbanização/ natureza,
regionalização/ internacionalização (é o
Rio porque o reconhecemos, mas talvez soubéssemos ser, mesmo
sem este conhecimento que escapa da hermenêutica da imagem, um
cenário periférico; talvez não). Ou, mais uma
dicotomia, a da terra/céu: o horizonte dos seus espaços é um
encontro de dois campos de tonalidade similar, sem contornos muito
definidos. Na tela O princípio da distância ele mesmo
quase some.
Há uma outra tendência em Raul Leal, além da frontalidade
de computador. E também aqui ele passa perto, e com sorte escapa,
do modernismo: é a geometrização. Na simplificação
haverá sempre um essencialismo à espreita, e é preciso
ter cuidado e recuperar a fragilidade, o não-acabado, e mesmo
a falta de sentido: somos mais nós, assim. A indeterminação
pode ser uma exigência de seus personagens, uma exigência
para a sobrevivência de quem vive em lugar nenhum.
|