Contraluz
Um corpo é entrevisto na contraluz: o isolamento parece
natural e incômodo. Se há indiferença
quanto ao instante fotográfico, esta vai desaparecendo
com o fazer da pintura: a sobreposição de camadas
liquefeitas de tinta altera distâncias, afasta certos
elementos da imagem que resistem ao desaparecimento. Na pintura
de Raul Leal o espaço é luminoso e contraditório
como a solidão urbana.
Por um processo de captura, despojamento e manipulação da luz,
formas esparsas se sustentam nos limites do enquadramento. E misturam-se criando
superfícies que se desprendem do próprio contorno, unindo o que é alheio,
apagando o que completa a figura. A folhagem e o corpo se equiparam no plano,
surgem espaços que não têm mais equivalência com o
fotográfico. A pintura, então, se estabelece.
Como trechos de um filme exibido quadro a quadro, cada imagem sugere uma seqüência
temporal. Homens e mulheres aparecem de passagem, cortando paisagens urbanas
das quais restam apenas poucos elementos. Em "Circunstâncias",
diante do infinito aberto no horizonte, a imagem retém apenas silhuetas
que contra o branco do papel, marcam o foco do artista-observador. Um caminhante
segue para fora do enquadramento da imagem. Na seqüência traves de
futebol, estacas e bancos contracenam com figuras reduzidas a fantasmas em negativo,
ecos da presença de corpos no vazio.
A luz se impõe, mantém a cor sob o regime dos tons frios. A concisão
intensifica o que se apresenta no quadro - uma árvore, um vulto, um banco
- em contraste com tudo que se ausenta e a imagem joga com o observador para
que este entregue à pintura o que lhe falta. Certas pinturas, como as
de Raul Leal, parecem convocar quem as observa a uma atividade correlata a de
seu autor. E se afirmam como resultado dessa sutil provocação.
Chegar a uma pintura não seria sempre algo provocado por uma imagem que
a antecede? É que a pintura tem um tempo próprio e o espaço é contaminado
pelas presenças que nele habitaram.